.
Todo dia tem alguma coisa a nos ensinar, esta frase se repetia continuamente na cabeça enquanto subia os 3 lances de escada que o levariam a um porto seguro de silêncio reflexão… Todo dia tem alguma coisa para nos ensinar e os dias que começam estranhos tem mais a ensinar que os outros. É como se a estabilidade nos privasse na necessidade de confrontar nossas próprias certezas.
As certezas são seres engraçados, efêmeros, que você acha que compartilha com o resto da humanidade. E a humanidade é cheia de certezas, mas cada um com sua. As certezas são seres muito mais evoluídos que os humanos, elas não devoram e nem matam umas às outras. É claro que de vez em quando rola um espancamento no mundo das certezas, mas certeza que é certeza não morre. Pode até ficar meio xôxa, coitadinha, pode até ficar de escanteio e sem ninguém disposto a lutar por ela… Por que um mundo incerto como o nosso só pode ser construído sobre um alicerce de certezas absolutas. Amém!
Minutos antes, caminhava tranquilamente pela rua achando que nada abalaria seu mundo de certezas instáveis. Assim seguiu até encontrar, na porta do prédio onde trabalha, o amigo zelador. Após os cumprimentos habituais e uma rápida passagem pelas manchetes do dia e outras amenidades, foi dum passado não muito distante que emergiu a bomba que abalaria suas tranqüilas certezas:
- Fernando Collor de Melo foi o homem que moralizou este país, nunca houve no mundo um presidente melhor que ele, só não fez mais por que foi boicotado… – Disse amigo Zelador com toda a certeza do mundo..
“Caralho!” Taí uma certeza que ele não esperava encontrar pela frente, tinha certeza de que era um absurdo e que ninguém poderia acreditar naquilo. Até riria se não fosse pelo medo de magoar o amigo. O instante de hesitação resultante da surpresa foi fatal, aquele microssegundo que o pugilista leva para assimilar o primeiro golpe e que abre o caminho para o espancamento. Enquanto tentava se esquivar dos tijolos que voavam em sua direção, e certezas são tijolos que constroem verdades, tentava entender que lógica regia aquelas certezas tão contundentes e aparentemente descabidas. Enquanto isso, um prédio inteiro era arremessado em sua direção, tijolo por tijolo.
- Ele era um azarão naquela eleição de _____. Tinha tudo contra ele, só muita vaidade política e vontade de acabar com a bandalheira neste país poderia ter feito aquele homem se candidatar a presidente…. – Continuava o inabalável amigo Zelador.
O baseball perdera um grande talento no amigo Zelador, duvido que na liga profissional haja um arremessador como aquele. Se era tão bom com os pesados e nada aerodinâmicos tijolos, imagina com aquela bolinha feita para voar?! Que prodígio ele seria!
Já tinha passado alguns minutos, teve tempo de respirar e ver que seus bolsos também estavam cheios de certezas, e elas com certeza eram mais aerodinâmicas que as certezas do amigo Zelador. Até tinha a impressão que não fora ele quem esquivara, que suas certezas é que o puxaram para um lado e para o outro, livrando-o do risco iminente de ter seu côco rachado pelos tijolos voadores. As certezas se conhecem bem, e uma sabe como se esquivar da outra…
Olhou no bolso e escolheu uma certeza certeira, aerodinâmica e precisa como uma bala de fuzil, não queria prolongar a discussão. Entre um tijolo e outro lançou o contragolpe perfeito: “Peraí, mas Collor não foi também o único presidente brasileiro a sofrer um processo de impeachment e renunciou antes para não passar esta vergonha?”
O amigo Zelador fez cara de quem levou um tijolo pela cara e não entendia como alguém poderia pensar aquilo, tinha certeza de que era um absurdo e que ninguém poderia acreditar naquilo. Até riria se não fosse pelo medo de magoar o amigo. O instante de hesitação resultante da surpresa foi fatal, aquele microssegundo que o pugilista leva para assimilar o primeiro golpe e que abre o caminho para o espancamento:
-E o P.C. Farias? E o dinheiro na máfia italiana financiando a campanha? E os carros oficiais levando cachorros para passear? E a manipulação de informações por parte da imprensa? E aquele debate totalmente manipulado pela rede globo, dias antes da eleição? E o confisco da poupança …
Olhou nos olhos perplexo do amigo Zelador e achou que a discussão estava encerrada. Tinha certeza disso até ver um condomínio inteiro ser arremessado contra sua cabeça, tijolo a tijolo, absurdos que nem ousa relembrar. E a batalha continuou por mais algum tempo, com cada um arremessando seus próprios tijolos sem perceber a falta de aerodinâmica. Chega o elevador, o Zelador entra, fecha a porta pantográfica e aperta o botão, sobe… O outro vai pelas escadas para evitar a continuidade da discussão.
-”É um absurdo ele acreditar nessas besteiras, quem acreditaria nisso? Nem vale a pena discutir com esse cara!” – Pensavam os dois ao mesmo tempo, sem se dar conta de que finalmente encontraram uma certeza em comum. Um tinha certeza de que o outro estava errado.
…As certezas são seres estranhos!