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Será que é insônia?

Postado em Al`Fahab, Estórias Para Boi Dormir em Outubro 12, 2009 por domlobo

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Chegou às duas e trinta da manhã e não entendeu o caminho que o levara até alí…  Não estava bêbado, seria muito mais fácil se estivesse…  Percorreu toda a sua vida como se bastasse um estalo para fazer com que algo acontecesse…

Como se para escrever um texto bastasse achar a primeira frase e o resto todo viesse naturalmente…  Como se difícil mesmo fosse começar alguma coisa… Tentava se enganar quanto a isso…  Redundancias e certezas eram as armas mais adequadas para disfarçar a insegurança que jorrava de seus olhos. Via a seu redor um mundo cheio de frases feitas e poses improvisadas…

Gostava de acreditar em muitas coisas, inclusive na importância de ser um descrente.

Lía e re-lia o que quase nem escreveu… Cheio de certezas e reticêcias, deixando um rastro de pistas para si mesmo, que tinha certeza ainda salvariam a humanidade.

Qualquer um poderia encerrar logo aquele paragrafo e acabar com todo esse sofrimento… Mas preferia sempre as reticências, adorava fingir que via uma beleza naquilo… Adorava fingir que via uma beleza…

Minunciosamente espontâneo, suspirava esperando a próxima palavra, o próximo clichê…  O clichê que ele mais gostava era: falar de clichê, gostava mais ainda se pudesse nem tocar no assunto…

Ser despretencioso é maior pretenção que um sujeito poderia ter na vida…  Lia e re-lia o texo a procura de espaços para novas reticências. A maior invenção da humanidade foram as reticências…  Em segundo lugar vem o “delete”, mas ele perde para a sequela.…

Reticências são muito boas… Tão boas quanto mentiras.

Disfarçar a fuga de busca. Adorava reticencêcias e acreditava ser atêu. Frases feitas e clichês… O maior disfarce são as tripas abertas, mas só depois das reticências…

Como era difícil um ponto final! Adorava fingir as coisas…

25 09 09

Rolling on the Paripe’s Railroad (no trem da leste)

Postado em Estórias Para Boi Dormir em Setembro 17, 2009 por domlobo

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Escovou os dentes e deu uma conferida no sorriso amarelo. Há séculos que não via brilhantina no mercado, mas o topete branco já ficava em riste só de ouvir aqueles velhos discos. Discos velhos, de jovens antigos…. Coisas velhas demais para estes jovens entenderem, jovens demais para perceber que ficarão obsoletos…

Nunca havia usado os tais casacos de couro, achava que seria ridículo neste calor, e nem andava numa lambreta.  Na verdade, nunca tivera dinheiro para essas coisas.

Fumava Derby e arrotava Malboro. Odiava fumaça, não gastaria muito dinheiro com isso, nem se tivesse, preferiria comprar um bom Zippo. O importante mesmo era saber o jeito certo de segurar o cigarro, aquele olhar de desdém mirando o horizonte, acrobacias com o isqueiro e o charme certeiro de soprar a fumaça pelo canto da boca….

Cuspiu no chão e pisou com seus sapatos lustrados, aproveitou para dar uma ajeitada no saco. Sentiu uma dor aguda nos ossos quando o vento frio invadiu o vagão. Olhava a praia da Ribeira e sonhava com carros conversíveis. Aquele vento maldito fez lhe lembrar a neve…  Lembrar?

Talvez houvesse tempo ainda… Sonhos velhos de garotos antigos. Coisas velhas demais para estes jovens entenderem, jovens demais para perceber que ficarão obsoletos…

…Imaginava a cor daquele branco todo.

That’s all right Mama!

As certezas são seres estranhos.

Postado em Al`Fahab, Estórias Para Boi Dormir em Setembro 15, 2009 por domlobo

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Todo dia tem alguma coisa a nos ensinar, esta frase se repetia continuamente na cabeça enquanto subia os 3 lances de escada que o levariam a um porto seguro de silêncio reflexão… Todo dia tem alguma coisa para nos ensinar e os dias que começam estranhos tem mais a ensinar que os outros. É como se a estabilidade nos privasse na necessidade de confrontar nossas próprias certezas.

As certezas são seres engraçados, efêmeros, que você acha que compartilha com o resto da humanidade. E a humanidade é cheia de certezas, mas cada um com sua. As certezas são seres muito mais evoluídos que os humanos, elas não devoram e nem matam umas às outras. É claro que de vez em quando rola um espancamento no mundo das certezas, mas certeza que é certeza não morre. Pode até ficar meio xôxa, coitadinha, pode até ficar de escanteio e sem ninguém disposto a lutar por ela… Por que um mundo incerto como o nosso só pode ser construído sobre um alicerce de certezas absolutas. Amém!

Minutos antes, caminhava tranquilamente pela rua achando que nada abalaria seu mundo de certezas instáveis. Assim seguiu até encontrar, na porta do prédio onde trabalha, o amigo zelador. Após os cumprimentos habituais e uma rápida passagem pelas manchetes do dia e outras amenidades, foi dum passado não muito distante que emergiu a bomba que abalaria suas tranqüilas certezas:

- Fernando Collor de Melo foi o homem que moralizou este país, nunca houve no mundo um presidente melhor que ele, só não fez mais por que foi boicotado… – Disse  amigo Zelador com toda a certeza do mundo..

“Caralho!” Taí uma certeza que ele não esperava encontrar pela frente, tinha certeza de que era um absurdo e que ninguém poderia acreditar naquilo. Até riria se não fosse pelo medo de magoar o amigo. O instante de hesitação resultante da surpresa foi fatal, aquele microssegundo que o pugilista leva para assimilar o primeiro golpe e que abre o caminho para o espancamento. Enquanto tentava se esquivar dos tijolos que voavam em sua direção, e certezas são tijolos que constroem verdades, tentava entender que lógica regia aquelas certezas tão contundentes e aparentemente descabidas. Enquanto isso, um prédio inteiro era arremessado em sua direção, tijolo por tijolo.

- Ele era um azarão naquela eleição de _____. Tinha tudo contra ele, só muita vaidade política e vontade de acabar com a bandalheira neste país poderia ter feito aquele homem se candidatar a presidente….  – Continuava o inabalável amigo Zelador.

O baseball perdera um grande talento no amigo Zelador, duvido que na liga profissional haja um arremessador como aquele. Se era tão bom com os pesados e nada aerodinâmicos tijolos, imagina com aquela bolinha feita para voar?! Que prodígio ele seria!

Já tinha passado alguns minutos, teve tempo de respirar e ver que seus bolsos também estavam cheios de certezas, e elas com certeza eram mais aerodinâmicas que as certezas do amigo Zelador. Até tinha a impressão que não fora ele quem esquivara, que suas certezas é que o puxaram para um lado e para o outro, livrando-o do risco iminente de ter seu côco rachado pelos tijolos voadores. As certezas se conhecem bem, e uma sabe como se esquivar da outra…

Olhou no bolso e escolheu uma certeza certeira, aerodinâmica e precisa como uma bala de fuzil, não queria prolongar a discussão. Entre um tijolo e outro lançou o contragolpe  perfeito: “Peraí, mas Collor não foi também o único presidente brasileiro a sofrer um processo de impeachment e renunciou antes para não passar esta vergonha?”

O amigo Zelador fez cara de quem levou um tijolo pela cara e não entendia como alguém poderia pensar aquilo, tinha certeza de que era um absurdo e que ninguém poderia acreditar naquilo. Até riria se não fosse pelo medo de magoar o amigo. O instante de hesitação resultante da surpresa foi fatal, aquele microssegundo que o pugilista leva para assimilar o primeiro golpe e que abre o caminho para o espancamento:

-E o P.C. Farias? E o dinheiro na máfia italiana financiando a campanha? E os carros oficiais levando cachorros para passear? E a manipulação de informações por parte da imprensa? E aquele debate totalmente manipulado pela rede globo, dias antes da eleição? E o confisco da poupança …

Olhou nos olhos perplexos do amigo Zelador e achou que a discussão estava encerrada. Tinha certeza disso até ver um condomínio inteiro ser arremessado contra sua cabeça, tijolo a tijolo, absurdos que nem ousa relembrar. E a batalha continuou por mais algum tempo, com cada um arremessando seus próprios tijolos sem perceber a falta de aerodinâmica. Chega o elevador, o Zelador entra, fecha a porta pantográfica e aperta o botão, sobe… O outro vai pelas escadas para evitar a continuidade da discussão.

-”É um absurdo ele acreditar nessas besteiras, quem acreditaria nisso? Nem vale a pena discutir com esse cara!” – Pensavam os dois ao mesmo tempo, sem se dar conta de que finalmente encontraram uma certeza em comum. Um tinha certeza de que o outro estava errado.

…As certezas são seres estranhos!

Sobre bolas e bonobos

Postado em Estórias Para Boi Dormir, Remoendo as Tripas em Setembro 4, 2009 por domlobo

bonoboSobre Bolas e Bonobos

 

 

Só sempre foi uma criança estranha.

Queria viver mais que o cara mais famoso do mundo. Ele achava que isso provaria alguma coisa. Era um ateu que queria viver mais que Jesus Cristo, um cara que ele nem acreditava que havia existido.

Só acreditava mesmo era em Elvis Presley, este sim era um cara de verdade, o cara mesmo. Quer dizer, era sempre ele fazendo o papel de outros caras que na verdade eram ele mesmo. E todo mundo sabia que ninguém sabia mais quem era o Elvis mesmo. Mas ele era o cara. Não era outro cara fazendo de contas que era ele, fingindo que era ele mesmo.

Só sempre achou Elvis mais honesto. Com aquela cara inchada de whisky, bolinhas, e gordura de porco. Era o mesmo charme de antes, mas com um olhar de “vou te fazer gastar todo o seu dinheiro e vender suas eperanças para poder conseguir mais um pouquinho, babe!”. Era de uma sinceridade comovente.

Então Só era um cara que já foi um jovem Bonobo que não sabia muito bem o que ia acontecer. Mas Só tinha certeza de que ficaria por ali para ver o resultado.

Os pais de Só queriam um futuro brilhante para ele, mas francamente nunca souberam dizer o que seria “um futuro brilhante”. Ele não se importava, Só tinha mesmo era uma vontade louca de chutar o pau da barraca…  Só por esporte, pra ver o que aconteceria, interese ciêntifico. Só ficaria por ali pra ver o resultado.

Mas Só nunca soube o que aconteceria. Na verdade, ele nunca soube chutar, era horrivel no futebol, nunca quis nem tentar. Uma vez Só chutou um penalti para trás. Ele nunca quis jogar futebol. Não tinha graça nenhuma chutar uma coisa que foi feita para isso. Tanto esforço só para chutar uma coisa que já foi feita para isso…   Francamente!

Só não entendia, mas ficaria na dele. Ele ficaria por ali para ver o resultado. Era um alienigena em um mundo alienigena, um estranho em um mundo estranho. Só pensava um monte de coisas sobre esta condição, era um sistema muito complexo de idéias. Eu nunca cheguei a entender direito, mas dava pra ver que realmente Só pensava naquilo.

E  assim cresceu Só, com esta coisa de querer chutar, mas nunca comentou isso com ninguém. Não poderia falar daquilo sem que o chamassem de maluco, radical, anarquista, sonhador, pertubador da ordem estabelecida, marginal. Na verdade Só gostava de todas aquelas palavras, eram tão engraçadas e não faziam nenhum sentido, não diziam coisa alguma. Só achava que isso era poesia…

Como pode haver alguém marginal em um mundo que não tem nem meio e nem margem? Pertubador da ordem estabeleccida? Olha só pela janela Cara-pálida, não há ordem nehuma. Quem estabeleceu o quê?  Bonobos idiotas, continuem chutando suas bolas. Suas próprias bolas, que foram feitas para serem chutadas. Nunca entederão a beleza do gesto do chute, não mais que nenhum outro Bonobo que goste de chutar coisas óbvias. E quaquer Bonobo bobo é capaz de gostar de futebol…

Até o pai de Só, que era um Bonobo bobo, não via nehuma graça em chutar cosias óbvias. Nunca gostou de futebol, ele preferia chutar pessoas, mas também nunca entendeu a “beleza do gesto”.

Só começava a achar que “a beleza do gesto” do chute era só uma idéia maluca que ele inventou sem querer, só pra se divertir… Só tinha certeza que ficaria ali para ver o resultado, mas não ficou. Só, que era um cara estranho em um mundo estranho desde que nasceu, mudou-se.

Só finalmente era um estranho em um mundo estranho, outro mundo estranho… Só continuava na mesma. Ele não ficaria ali por muito tempo, mas Só acabou ficando pra ver o resultado.

Ah! Agora Só não estava sozinho, quer dizer… eu nunca disse que Só era sozinho, não era. Só só era Só. Só  isso, simples, mesmo acompanhado. Por que ninguém muda quem é só por que está acompanhado. Chico deixa de ser Chico quando tá com Maria? E quando tá com João? Quando tá  com a turma toda, ele continua sendo Chico… Imagina!

…Mas talvez isso seja só uma idéia maluca que Só inventou sem querer, só pra se divertir.  Mas como não perguntou a ninguem, Só era muito feliz acomopanhado e sendo ele mesmo, Só.

Só era um feliz Bonobo burro, em um mundo de Bonobos bobos…

Os Bonobos bobos eram muito bobos e seguiam muito bem as regras. Eles eram muito inteligentes por que aprendiam bem, se adaptavam rapidamente às mudanças. Mas como não conheciam as regras, nunca sabiam se elas mudaram ou não. Mas eles eram muitos bons em seguir, tinham que cuidar desta habilidade com praticidade estratégica.

Só era um Bonobo burro, ele não sabia como seguir a regra sem conhece-la. Era burro e não aprendia  isso. Se os bonobos bobos não conheciam a regra, imagina ele que era burro!?

Toda vez que conseguia achar a regra do jogo, e isso dava muito trabalho a Só, a regra dizia que os Bonobos bobos é que eram burros, e não ele. A regra dizia que era feita por aqueles que a seguiam. Parecia um pergaminho japonês, mensagem cifrada…

…E assim seguiu Só, feliz e acompanhado, e com ideias estranhas na cabeça…

Continuava com vontade de chutar alguma coisa, mas não valia bola! Achava a idéia idiota.

 

- A bola foi feita pra chutar – Os Bonobos bobos sempre diziam.

Só achava aquilo bobo, Bonobos bobos não sabem a regra do jogo.

Quem foi feito pra chutar foi o pé, qualquer Bonobo burro saberia.

“Você chuta o que quiser”, era o que a regra dizia…

 

…Ontem Só levou um chute nas bolas, e não viu “a beleza do gesto”.

Fez 34 anos, segue feliz e acompanhado, e continua sendo ele, Só.

 

- Bonobo burro, você já sabia a regra do jogo!